TEA em Meninas e Mulheres: Por que Reconhecer Suas Manifestações Específicas é Crucial para o Diagnóstico
Análise das particularidades da identificação do autismo em mulheres e importância da compreensão dessas diferenças para um diagnóstico eficaz e melhora na qualidade de vida.
Thais de Souza Sottili
12/6/20253 min read


O entendimento sobre o autismo em meninas e mulheres tem se aprofundado nos últimos anos, especialmente quando se trata do TEA Nível 1, cujas manifestações são mais sutis e, por isso, frequentemente passam despercebidas. Diferentemente de níveis mais elevados do espectro, o nível 1 apresenta sinais que podem ser confundidos com características de personalidade, timidez ou elevada sensibilidade. Como essas pessoas costumam demonstrar boa capacidade intelectual, comunicação preservada e desempenho funcional adequado, suas dificuldades internas muitas vezes não são reconhecidas por quem convive com elas, e, em muitos casos, nem por elas mesmas.
Pessoas autistas nível 1 geralmente desenvolvem uma percepção muito clara das suas dificuldades nas interações sociais. Sabem que precisam se esforçar mais para compreender situações sociais, interpretar nuances ou lidar com ambientes estimulantes. Essa consciência intensa, somada ao esforço contínuo para atender às expectativas externas, pode resultar em desgaste emocional, ansiedade, depressão e sensação de inadequação. A tentativa constante de corresponder ao que o ambiente demanda, mesmo quando isso exige grande esforço, torna-se parte do cotidiano.
Entre meninas e mulheres, esse cenário costuma ser ainda mais complexo. Diversos estudos apontam que o público feminino apresenta maior habilidade para camuflar comportamentos autistas. A camuflagem social, ou masking, consiste na adoção de estratégias aprendidas, de forma consciente ou não, para ocultar sinais do espectro. Isso inclui monitorar expressões faciais, ajustar o tom de voz, imitar padrões de comportamento, controlar movimentos espontâneos, esconder desconfortos sensoriais e observar atentamente aquilo que é socialmente esperado. Embora eficazes para evitar julgamentos externos, essas estratégias geram grande sobrecarga emocional e física. Muitas mulheres relatam esgotamento após interações sociais, crises emocionais ao final do dia, sensação de estar representando um papel e até síndrome do impostor, por acreditarem que suas conquistas não são genuínas.
Essas estratégias de adaptação se relacionam a particularidades do funcionamento cerebral feminino. Pesquisas indicam que mulheres apresentam maior densidade de neurônios e mais atividade em regiões associadas à linguagem, imitação, empatia e percepção social, áreas frequentemente afetadas no autismo. Essas capacidades permitem que meninas autistas compensem muitas de suas dificuldades, tornando-se aparentemente comunicativas e sociáveis, mesmo quando enfrentam desafios significativos internamente. Além disso, a linguagem costuma estar preservada ou até acima da média, o que contribui ainda mais para que sinais do TEA sejam minimizados ou interpretados de maneira equivocada.
Por isso, não é raro que mulheres recebam o diagnóstico apenas na vida adulta, geralmente após episódios de ansiedade intensa, depressão, burnout ou uma sensação persistente de não pertencimento. Quando o diagnóstico finalmente surge como possibilidade, abre-se uma oportunidade de compreender aspectos profundos da própria história e do próprio funcionamento emocional.
Nesse contexto, a avaliação neuropsicológica desempenha um papel fundamental. Ela não apenas identifica a presença do TEA, como também diferencia o quadro de outras condições que podem coexistir ou imitar seus sintomas — como TDAH, ansiedade ou depressão. A avaliação oferece um panorama detalhado do funcionamento cognitivo, emocional e comportamental, permitindo identificar pontos fortes, desafios e necessidades específicas. Para muitas mulheres, esse processo é transformador: valida experiências antigas, reduz a autocrítica e abre caminhos concretos para um cuidado mais adequado e acolhedor.
Compreender as diferenças na manifestação do autismo entre os gêneros é essencial para promover diagnósticos mais precisos, reduzir o sofrimento silencioso e oferecer suporte adequado.
Fontes: Júlio-Costa A, Starling-Alves I, Antunes AM (2023). Leve pra quem? Transtorno do Espectro Autista Nível 1 de Suporte. Belo Horizonte: Ampla.
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